

“O amor, então, implica algo mais do que uma série de ações benéficas. As ações nascem de uma união que se inclina cada vez mais para o outro, considerando-a valiosa, digna, agradável e bela, além das aparências físicas ou morais. O amor do outro por ser quem é, nos move a buscar o melhor para sua vida. Somente cultivando esta forma de relacionamento, tornaremos possível a amizade social que não exclui ninguém e a fraternidade aberta a todos”.
(Papa Francisco, Fratelli Tutti, numero 94)
7/01/2021
Queridas irmãs em Cristo,
Mesmo após 10 meses de ter deixado o Brasil, ainda um pedaço do meu coração mora aí com vocês e continua pulsando com tudo aquilo que vocês fazem!
Senti a necessidade de dividir um pouco com vocês o que está sendo a minha nova realidade e missão pois tecei laços muito fortes com tantas pessoas maravilhosas e é o modo que achei para partilhar um pouco desse novo momento e também pedir orações; mesmo sabendo que algumas acompanham pelo Facebook, atingi o limite de amigos, então acredito que outros não conseguem acesso. Ao final, o que sou hoje e o consigo fazer aqui no Benin nasceu aí em São Paulo, no Brasil.
Assim que sai do Brasil, a OMS declarou COVID-19 pandemia mundial e ocorreu o lockdown em Montreal, cidade aonde meus pais ainda vivem e grande parte da família. Fiquei “presa” na casa deles por 6 semanas. A minha mãe adorou; há 25 anos não ficava mais de 15 dias em casa no momento das visitas. Depois foi morar nas comunidades das irmãs Marcelinas no Canada. Lá também lockdown, escolas fechadas, tudo com aulas virtuais. Tive oportunidade de integrar uma equipe de médicos estrangeiros no departamento de saúde publica da cidade de Montreal e trabalhar como agente de Brigada de COVID-19 por dois meses. Aprendi muito. Visitamos muitas congregações religiosas envelhecidas e casas/residências para pessoas idosas aonde ocorreram o maior número de casos de COVID-19, e infelizmente de mortes, no Canada. Tivemos muitos treinamentos e convivi com médicos Africanos que tinham vivido a epidemia de Ebola. As trocas foram maravilhosas. E o tempo passou. Em vez de ficar dois meses no Canada fiquei 5 e finalmente pude vir para o Benin.
Cheguei no dia 13 de agosto, há quase 5 meses. Foi recebida de braços abertos pela nossa pequena comunidade de 3 irmãs. As irmãs têm uma escola há mais o menos uma hora da grande cidade de Cotonou desde 2007; tem ensino infantil, fundamental e as medias (jovens até 16 anos); são 643 alunos. A minha missão principal é de trazer para o Benin a Pastoral da Criança chamada de Pastoral da Primeira Infância aqui, sob a direção da Caritas e do Padre Raymond Goudjo, que esteve no Brasil o ano passado. Ainda o projeto está muito no início. A primeira chamada de voluntários na paroquia de São José, perto da nossa casa, aconteceu em Novembro, pois tinha que esperar um e depois o outro e o primeiro foi de férias e assim se passaram os três primeiros meses.

Vários agentes já estão se dedicando dos quais dois super envolvidos que já têm mais de 8 gestantes e 20 bebés menores de dois anos acompanhados por eles. Encontraram bem pertinho da nossa escola, a criança “mascote”, aquela que nos fará lembrar todos os dias o real motivo do início dessa pastoral – Ela se chama “Trinité” (Trindade) tem 14 meses e pesa 4 kilos !!! Desnutrição extrema!!! Ela tem uma irmãzinha que acaba de nascer – há uma semana- e que pesa 2,8 kilos. A mortalidade infantil dos menores de 5 anos aqui no Benin, ainda está acima de 60/1000 nascidos vivos e o indicador mais chocante ainda é da mortalidade materna: 342 mulheres morrem a cada 100 000 nascidos vivos. É demasiado! Tantos órfãos, dá dó!


E as gestantes não fazem consultas e nem tomam suplementos e nem ferro; tudo é pago aqui!!! Não existe SUS!!! Não existe PSF!!! Infelizmente. É muito difícil. Fiz questão de partilhar isso pois vocês têm que valorizar o SUS; não é um sistema perfeito, tem falhas, mas, para os mais jovens, vocês não podem imaginar o que é não ter SUS…
As famílias ficam arruinadas quando tem algum problema de saúde e complicação, as vezes as pessoas ficam abandonadas no hospital pois os parentes não conseguem pagar a contam, mas a maior parte das vezes, o paciente é levado embora para morrer em casa pois não tem como pagar o tratamento. Temos uma criança na escola com tumor ósseo cerebral, ela se sente culpada de estar doente. É um peso para a família que tem o mínimo para sobreviver e tem que achar como fazer exames caros para a filha… E depois a cirurgia e os medicamentos. Por isso, os casos chegam muito avançados nos hospitais, quando não tem mais nada para fazer. Essa realidade bate todos os dias na porta. Dá um sentimento de grande impotência e faz nascer a vontade de lutar para os direitos de todos para que TODOS tenham acesso a cuidados.

Ao longo desses 5 meses, além de trabalhar na implantação da pastoral da primeira infância, fiz várias outras coisas como:
1) A visita de puericultura dos 643 alunos da escola: os problemas maiores são de saúde bucal- não escovam os dentes de forma regular; alimentação pobre, sem frutas ou legumes a pesar dos mercados estarem repletos de frutas lindas- tem o melhor abacaxi do mundo- e problemas de pele.
2) O apoio a Ir. Clarice na formação carismática dos professores e a integração da escola no pacto educativo global lançado pelo Papa Francisco em outubro de 2020.
3) Implantação de um programa de qualidade no hospital Lacroix que é dos camilianos e no qual já fizemos várias missões anteriormente– mas que infelizmente não recebe nenhuma ajuda dos camilianos do Brasil.
4) Apoio e orientação na construção de um hospital geral que servirá uma população perto da Capital assim como, especialmente, os pacientes de saúde mental. Quem coordena a Associação desse projeto é um mecânico que iniciou uma obra fantástica e revolucionou a saúde mental do Benin, do Togo e da Costa de Marfim. Quem trabalha e cuida dos doentes são doentes curados e em remissão.
5) Sou conselheira de uma nova Associação de Bairro chamada Kplewanou, para o desenvolvimento da região aonde está a nossa escola.

6) Aluna da língua local que se chama FON e que é muito difícil pois não tem nada a ver com nenhuma outra língua latina, germânica ou outra. A língua reflete bem a cultura. A gente conjuga sogra no plural por exemplo pois é uma cultura polígama. A narina é literalmente o buraco do nariz – awontin e awontinli. E as saudações tem que incluir a família pois, se não fizer isso, é considerado falta de respeito nos cumprimentos… enfim, só para ter uma pequena noção. Chegando numa casa, tem que oferecer água e tem que derramar um pouco no chão para os ancestrais que estão aí…
A carta está ficando longa mas teria tanto para contar ainda. Tem o Ambroise, criança de 3 anos com paralisia cerebral, abandonado pelos pais. A bisavô pegou-o e está criando-o sem recursos. Fizeram um andador de madeira para ajuda-lo.

E a mãe de um professor da nossa escola, que estava há 4 meses sem andar depois de ter fraturado o fêmur andando de moto, o meio de transporte mais comum; se anda de dois, três, quatro e até seis numa moto. A senhora estava sem condições de fazer cirurgia, acompanhamento ou fisioterapia. Conseguimos um andador e ela começou a andar…

Quis aproveitar a época de natal (que na nossa liturgia católica termina com o batismo de Jesus no domingo próximo) para desejar que todos possam contemplar esse Deus que se incarnou, que nasceu na periferia do mundo para nos ajudar a abrir os olhos para a grandeza dos pequenos acontecimentos e ouvir o convite a seguir o caminho percorrido por Maria, Joseph e Jesus. Uma invitação a tornar-nos artesãos do novo mundo. Artesãos de fraternidade e paz. O nascimento de uma criança é, em todas as culturas e em todos os tempos, uma fonte de alegria para aqueles que o recebem como um presente da vida. Com os recém-nascidos, tenhamos um renovo de Esperança e o desejo de construir um melhor futuro que o presente. Esperamos que essa Pandemia do COVID-19 possa nos mostrar um caminho de verdadeira fraternidade universal, exortada pelo Papa Francisco para enfrentar todas as desigualdades que essa crise acentuou e as milhões de pessoas que sofrerão fome em todo lugar, inclusive no Brasil.
Com carinho imenso para cada uma, certa de estar unida pela oração.

