{"id":8960,"date":"2023-06-23T10:32:40","date_gmt":"2023-06-23T08:32:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.marcelline.org\/?p=8960"},"modified":"2023-06-23T10:32:41","modified_gmt":"2023-06-23T08:32:41","slug":"carta-apostolica-sublimitas-et-miseria-hominis-do-santo-padre-francisco-no-iv-centenario-do-nascimento-de-blaise-pascal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.marcelline.org\/pt-br\/carta-apostolica-sublimitas-et-miseria-hominis-do-santo-padre-francisco-no-iv-centenario-do-nascimento-de-blaise-pascal\/","title":{"rendered":"CARTA APOST\u00d3LICA SUBLIMITAS ET MISERIA HOMINIS DO SANTO PADRE FRANCISCO NO IV CENTEN\u00c1RIO DO NASCIMENTO DE BLAISE PASCAL"},"content":{"rendered":"\n<p>Grandeza e mis\u00e9ria do homem&nbsp;\u00e9 o paradoxo que est\u00e1 no centro da reflex\u00e3o e mensagem de Blaise Pascal, nascido h\u00e1 quatro s\u00e9culos, em 19 de junho de 1623, em Clermont, no centro da Fran\u00e7a. Desde crian\u00e7a e por toda a vida, procurou a verdade. Com a raz\u00e3o, esquadrinhou os sinais dela, especialmente nos campos da matem\u00e1tica, geometria, f\u00edsica e filosofia. Em idade ainda muito precoce, fez descobertas extraordin\u00e1rias, alcan\u00e7ando fama consider\u00e1vel. Mas n\u00e3o ficou por a\u00ed. Num s\u00e9culo de grandes progressos em muitos campos da ci\u00eancia, acompanhados por\u00e9m dum crescente esp\u00edrito de ceticismo filos\u00f3fico e religioso, Blaise Pascal mostrou-se um incans\u00e1vel investigador do verdadeiro: como tal, permanece sempre \u00abinquieto\u00bb, atra\u00eddo por novos e mais amplos horizontes.<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, uma raz\u00e3o assim arguta e, ao mesmo tempo, t\u00e3o aberta nunca silenciava nele a quest\u00e3o, antiga e sempre nova, que ressoa no \u00e2nimo humano: \u00abQue \u00e9 o homem para Te lembrares dele, o filho do homem para com ele Te preocupares?\u00bb ( <em>Sal<\/em> 8, 5). Esta pergunta est\u00e1 gravada no cora\u00e7\u00e3o de cada ser humano, em todo o tempo e lugar, de qualquer civiliza\u00e7\u00e3o e l\u00edngua, independentemente da sua religi\u00e3o. Assim vemos Pascal interrogar-se: \u00abQue \u00e9 um homem na natureza? Um nada comparado com o infinito, um tudo comparado com o nada\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn1\">[1]<\/a> \u00c9 o mesmo interrogativo que aparece encastoado l\u00e1 no Salmo 8, no centro duma hist\u00f3ria de amor entre Deus e o seu povo, hist\u00f3ria realizada na carne do \u00abFilho do homem\u00bb, Jesus Cristo, que o Pai entregou at\u00e9 ao ponto de Lhe fazer sentir o seu abandono para O coroar de gl\u00f3ria e honra acima de toda a criatura (8, 6). A tal interrogativo, expresso numa linguagem muito diferente das linguagens da matem\u00e1tica e da geometria, Pascal nunca se fechou.<\/p>\n\n\n\n<p>Na base disto, parece-me poder reconhecer nele uma atitude de fundo, que definiria \u00ababertura estupefacta \u00e0 realidade\u00bb, que \u00e9 abertura \u00e0s outras dimens\u00f5es do saber e da exist\u00eancia, abertura aos outros, abertura \u00e0 sociedade. Por exemplo, em 1661 esteve na origem, em Paris, da primeira rede de transportes p\u00fablicos da hist\u00f3ria, as designadas \u00ab<em>Carrosses \u00e0 cinq sols<\/em>\u00bb. Se o sublinho desde o in\u00edcio desta Carta, \u00e9 para insistir no facto de que nem a sua convers\u00e3o a Cristo, sobretudo a partir da sua \u00abNoite de Fogo\u00bb em 23 de novembro de 1654, nem o seu extraordin\u00e1rio esfor\u00e7o intelectual de defesa da f\u00e9 crist\u00e3 fizeram dele uma pessoa isolada do seu tempo. Estava atento aos problemas ent\u00e3o mais sentidos, bem como \u00e0s necessidades materiais de todos os componentes da sociedade em que vivia.<\/p>\n\n\n\n<p>Para ele, a abertura \u00e0 realidade significava n\u00e3o se fechar aos outros, nem mesmo na hora da sua \u00faltima doen\u00e7a. Deste per\u00edodo (tinha ele trinta e nove anos), chegam-nos palavras que exprimem o passo conclusivo de tal caminho evang\u00e9lico: \u00abSe os m\u00e9dicos falam verdade (e Deus permita que eu recupere desta doen\u00e7a), estou decidido para o resto da minha vida a n\u00e3o ter outro emprego nem outra ocupa\u00e7\u00e3o al\u00e9m do servi\u00e7o aos pobres\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn2\">[2]<\/a> \u00c9 comovente constatar que, nos \u00faltimos dias da sua vida, um pensador t\u00e3o genial como Blaise Pascal n\u00e3o via urg\u00eancia mais sublime para investir as suas energias do que as obras de miseric\u00f3rdia: \u00abO \u00fanico objeto da Escritura \u00e9 a caridade\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn3\">[3]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Alegro-me, pois, pelo facto de a Provid\u00eancia me ter dado, neste IV centen\u00e1rio do seu nascimento, ocasi\u00e3o de lhe prestar uma especial homenagem e evidenciar, no seu pensamento e na sua vida, aquilo que me parece capaz de estimular os crist\u00e3os do nosso tempo e todos os homens e mulheres de boa vontade na busca da verdadeira felicidade: \u00abQue todos os homens procuram ser felizes, \u00e9 regra sem exce\u00e7\u00e3o, por mais diversos que sejam os meios a que recorrem. Todos tendem para esta finalidade\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn4\">[4]<\/a> Quatro s\u00e9culos depois do seu nascimento, Pascal continua a ser para n\u00f3s o companheiro de estrada que acompanha a nossa busca da verdadeira felicidade e, na medida do dom da f\u00e9, o nosso reconhecimento humilde e jubiloso do Senhor morto e ressuscitado.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Um enamorado de Cristo, que fala a todos<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Se Blaise Pascal consegue tocar a todos, \u00e9 sobretudo porque falou admiravelmente da condi\u00e7\u00e3o humana. Mas seria errado ver nele apenas um especialista, embora genial, dos costumes humanos. O monumento formado pelos seus <em>Pensamentos<\/em>, de que alguns ditos isolados ficaram c\u00e9lebres, n\u00e3o se pode compreender realmente se se ignora que Jesus Cristo e a Sagrada Escritura constituem simultaneamente o centro e a chave do mesmo. Com efeito, se Pascal come\u00e7ou a falar do homem e de Deus, foi por ter chegado \u00e0 certeza de que \u00abn\u00e3o s\u00f3 conhecemos a Deus unicamente por Jesus Cristo, mas tamb\u00e9m nos conhecemos a n\u00f3s mesmos apenas por Jesus Cristo. S\u00f3 conhecemos a vida, a morte por meio de Jesus Cristo. Fora de Jesus Cristo, n\u00e3o sabemos o que \u00e9 a nossa vida, a nossa morte, nem quem \u00e9 Deus nem mesmo o que somos n\u00f3s. Portanto sem a Escritura, cujo \u00fanico objeto \u00e9 Jesus Cristo, n\u00e3o conhecemos nada e n\u00e3o vemos sen\u00e3o escurid\u00e3o\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn5\">[5]<\/a> Uma afirma\u00e7\u00e3o assim extrema merece ser esclarecida, para ser compreendida por todos sem ser vista como pura afirma\u00e7\u00e3o doutrinal inacess\u00edvel a quantos n\u00e3o partilham da f\u00e9 da Igreja, nem como uma desvaloriza\u00e7\u00e3o das leg\u00edtimas compet\u00eancias da intelig\u00eancia natural.<\/p>\n\n\n\n<p><em>F\u00e9, amor e liberdade<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Como crist\u00e3os, devemos precaver-nos da tenta\u00e7\u00e3o de brandir a nossa f\u00e9 como uma certeza incontest\u00e1vel que se imporia a todos. Pascal tinha, sem d\u00favida, a preocupa\u00e7\u00e3o de dar a conhecer a todos que \u00abDeus e o verdadeiro s\u00e3o insepar\u00e1veis <em>\u00bb;<\/em> <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn6\">[6]<\/a> mas sabia que o ato de crer \u00e9 poss\u00edvel pela gra\u00e7a de Deus, recebida num cora\u00e7\u00e3o livre. Ele que, pela f\u00e9, chegara ao encontro pessoal com \u00abo Deus de Abra\u00e3o, o Deus de Isaac, o Deus de Jacob, n\u00e3o dos fil\u00f3sofos nem dos eruditos\u00bb, <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn7\">[7]<\/a> tinha reconhecido em Jesus Cristo \u00abo Caminho, a Verdade e a Vida\u00bb ( <em>Jo<\/em> 14, 6). Por isso, a quantos querem continuar a buscar a verdade \u2013 tarefa sem fim, nesta vida \u2013, proponho-lhes que se coloquem \u00e0 escuta de Blaise Pascal, um homem de intelig\u00eancia prodigiosa que quis recordar que, fora da perspetiva do amor, n\u00e3o h\u00e1 verdade que valha a pena: \u00abFaz-se um \u00eddolo at\u00e9 da pr\u00f3pria verdade, pois a verdade fora da caridade n\u00e3o \u00e9 Deus, \u00e9 sua imagem e um \u00eddolo que n\u00e3o se deve amar nem adorar <em>\u00bb<\/em>. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn8\">[8]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Assim nos adverte Pascal contra as falsas doutrinas, as supersti\u00e7\u00f5es ou a libertinagem que mant\u00eam, a tantos de n\u00f3s, longe da paz e alegria duradouras d\u2019Aquele que deseja que escolhamos a vida e a felicidade, n\u00e3o a morte e a desventura (cf. <em>Dt<\/em> 30, 15.19). O drama, por\u00e9m, da nossa vida \u00e9 que \u00e0s vezes vemos mal e, consequentemente, escolhemos mal. Na realidade, s\u00f3 podemos saborear a felicidade do Evangelho, \u00abse o Esp\u00edrito Santo nos permear com toda a sua for\u00e7a e nos libertar da fraqueza do ego\u00edsmo, da pregui\u00e7a, do orgulho\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn9\">[9]<\/a> Al\u00e9m disso, \u00absem a sapi\u00eancia do discernimento, podemos facilmente transformar-nos em marionetes \u00e0 merc\u00ea das tend\u00eancias da ocasi\u00e3o\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn10\">[10]<\/a> Por isso mesmo a intelig\u00eancia e a f\u00e9 viva de Blaise Pascal, que quis mostrar que a religi\u00e3o crist\u00e3 \u00e9 \u00abvener\u00e1vel porque conhece bem o homem\u00bb e \u00abam\u00e1vel porque promete o verdadeiro bem\u00bb, <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn11\">[11]<\/a> podem-nos ajudar a avan\u00e7ar por entre as trevas e as desgra\u00e7as deste mundo.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Uma mente cient\u00edfica excecional<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Quando sua m\u00e3e morreu em 1626, Blaise Pascal tinha tr\u00eas anos de idade. O pai Est\u00eav\u00e3o, um considerado jurista, \u00e9 igualmente renomado pelas suas not\u00e1veis inclina\u00e7\u00f5es cient\u00edficas, principalmente para a matem\u00e1tica e a geometria. Decidido a educar sozinho os seus tr\u00eas filhos \u2013 Jacqueline, Blaise e Gilberte \u2013, instala-se em Paris no ano de 1632. Desde muito cedo, Blaise deu mostras duma mente excecional e duma grande exig\u00eancia na busca da verdade, como refere sua irm\u00e3 Gilberte: \u00abDesde a inf\u00e2ncia, ele s\u00f3 se rendia \u00e0quilo que lhe parecia manifestamente verdadeiro; de tal modo que, quando n\u00e3o se lhe davam boas raz\u00f5es, procurava-as ele mesmo\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn12\">[12]<\/a> Um dia o pai surpreendeu o filho nas pesquisas de geometria e logo se apercebeu que Blaise, de doze anos, sem saber que tais teoremas existiam em livros com outros nomes, demonstrara completamente sozinho, desenhando por terra figuras, as primeiras trinta e duas proposi\u00e7\u00f5es de Euclides. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn13\">[13]<\/a> Gilberte lembra-se de que ent\u00e3o o pai ficou \u00abespantado com a grandeza e o talento deste g\u00e9nio\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn14\">[14]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Nos anos que se seguiram, Blaise Pascal far\u00e1 frutificar o seu enorme talento, consagrando-lhe a pr\u00f3pria for\u00e7a de trabalho. Desde os dezassete anos, frequenta os maiores s\u00e1bios do seu tempo. Sucedem-se rapidamente as suas descobertas e publica\u00e7\u00f5es. Em 1642 (tinha ele dezanove anos), inventa uma m\u00e1quina de aritm\u00e9tica, antecessora das nossas calculadoras. Blaise Pascal aparece-nos extremamente estimulante, j\u00e1 que nos recorda a grandeza da raz\u00e3o humana e convida a us\u00e1-la para decifrar o mundo que nos rodeia. A intelig\u00eancia geom\u00e9trica, ou seja, aquela sua capacidade de compreender em detalhe o funcionamento das coisas, ser-lhe-\u00e1 \u00fatil toda a vida, como observou o eminente te\u00f3logo Hans Urs von Balthasar:&nbsp;\u00abDa&nbsp;precis\u00e3o pr\u00f3pria dos dom\u00ednios da geometria e das ci\u00eancias da natureza, ele \u00e9 capaz de alcan\u00e7ar a precis\u00e3o muito diferente que \u00e9 pr\u00f3pria do dom\u00ednio da exist\u00eancia em geral e da esfera crist\u00e3\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn15\">[15]<\/a> Este exerc\u00edcio cheio de confian\u00e7a na raz\u00e3o natural, que o torna solid\u00e1rio com todos os seus semelhantes \u00e0 procura da verdade, permitir-lhe-\u00e1 reconhecer os limites da pr\u00f3pria intelig\u00eancia e, ao mesmo tempo, abrir-se \u00e0s raz\u00f5es sobrenaturais da Revela\u00e7\u00e3o, atendo-se \u00e0quela l\u00f3gica do paradoxo que confere a marca filos\u00f3fica e o encanto liter\u00e1rio aos seus <em>Pensamentos<\/em>: \u00abA Igreja teve tanta dificuldade em mostrar que Jesus Cristo era homem, contra aqueles que o negavam, como a teve para mostrar que era Deus; e todavia os ind\u00edcios eram tamanhos\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn16\">[16]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><em>Os fil\u00f3sofos<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Sobressai um discurso filos\u00f3fico em muitos escritos de Pascal, em particular nos seus <em>Pensamentos<\/em>: esse conjunto de fragmentos, publicados postumamente, que s\u00e3o as notas ou os rascunhos dum fil\u00f3sofo animado por um projeto teol\u00f3gico, cujos pesquisadores se empenham em reconstituir, n\u00e3o sem varia\u00e7\u00f5es, a coer\u00eancia e a ordem original. O amor apaixonado por Cristo e o servi\u00e7o dos pobres, que mencionei no in\u00edcio, n\u00e3o foram tanto o sinal duma fratura no esp\u00edrito deste disc\u00edpulo corajoso, como sobretudo um aprofundamento rumo \u00e0 radicalidade evang\u00e9lica, o avan\u00e7ar para a verdade viva do Senhor com a ajuda da gra\u00e7a. Ele que tinha a certeza sobrenatural da f\u00e9, vendo-a claramente conforme \u00e0 raz\u00e3o embora a ultrapasse infinitamente, quis levar o mais longe poss\u00edvel o debate com quantos n\u00e3o partilhavam a sua f\u00e9, porque, \u00ab\u00e0queles que a n\u00e3o t\u00eam, s\u00f3 a podemos dar pelo racioc\u00ednio, esperando que Deus lha conceda pelo sentimento do cora\u00e7\u00e3o <em>\u00bb<\/em>. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn17\">[17]<\/a> Trata-se duma evangeliza\u00e7\u00e3o cheia de respeito e paci\u00eancia, que a nossa gera\u00e7\u00e3o far\u00e1 bem em imitar.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, para se compreender bem o discurso de Pascal sobre o cristianismo, \u00e9 necess\u00e1rio estar atento \u00e0 sua filosofia. Admirava a sabedoria dos fil\u00f3sofos gregos antigos, capazes de simplicidade e tranquilidade na sua arte de bem viver, como membros duma <em>polis<\/em>: \u00abN\u00e3o consegue imaginar Plat\u00e3o e Arist\u00f3teles como pedantes com grandes vestes. Eram pessoas honestas como as outras, rindo com os seus amigos. E, quando se divertiram a fazer as suas leis e as suas pol\u00edticas [isto \u00e9, as grandes obras filos\u00f3ficas que s\u00e3o <em>As Leis<\/em> (Plat\u00e3o) e <em>A Pol\u00edtica<\/em> (Arist\u00f3teles)], fizeram-no como um jogo. Era a parte menos filos\u00f3fica e mais divertida da sua vida; a mais filos\u00f3fica era viver de forma simples e tranquila\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn18\">[18]<\/a> N\u00e3o obstante a sua import\u00e2ncia e utilidade, Pascal n\u00e3o deixa de discernir os limites destes fil\u00f3sofos: o estoicismo leva ao orgulho, <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn19\">[19]<\/a> o ceticismo ao desespero. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn20\">[20]<\/a> A raz\u00e3o humana \u00e9, sem d\u00favida alguma, uma maravilha da cria\u00e7\u00e3o, que distingue o homem dentre todas as criaturas, porque \u00abo homem n\u00e3o passa duma cana, a mais fr\u00e1gil da natureza, mas \u00e9 uma cana pensante\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn21\">[21]<\/a> Compreende-se assim que os limites dos fil\u00f3sofos sejam simplesmente os limites da raz\u00e3o criada. Por mais que Dem\u00f3crito afirme \u00abvou falar de tudo\u00bb, <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn22\">[22]<\/a> a verdade \u00e9 que a raz\u00e3o sozinha n\u00e3o pode resolver as quest\u00f5es mais elevadas e impelentes. De facto, tanto na \u00e9poca de Pascal como hoje, qual \u00e9 o assunto de maior interesse para n\u00f3s? \u00c9 o sentido integral do nosso destino, da nossa vida e da nossa esperan\u00e7a, concretamente uma felicidade que nada nos pro\u00edbe conceber como eterna, mas que s\u00f3 Deus \u00e9 capaz de no-la dar: \u00abN\u00e3o h\u00e1 nada de t\u00e3o importante para o homem como a sua condi\u00e7\u00e3o; para ele, nada \u00e9 t\u00e3o assombroso como a eternidade\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn23\">[23]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Meditando os <em>Pensamentos<\/em> de Pascal, encontramos de certa forma este princ\u00edpio fundamental: \u00abA realidade \u00e9 superior \u00e0 ideia\u00bb, porque Pascal ensina a desviar-nos das \u00abv\u00e1rias formas de ocultar a realidade\u00bb, desde os \u00abpurismos ang\u00e9licos\u00bb aos \u00abintelectualismos sem sabedoria\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn24\">[24]<\/a> Nada \u00e9 mais perigoso do que um pensamento desencarnado: \u00abQuem quer fazer o anjo, faz a besta\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn25\">[25]<\/a> E as ideologias mort\u00edferas, de que se continua a enfermar em \u00e2mbito econ\u00f3mico, social, antropol\u00f3gico ou moral, mant\u00eam os seus sequazes em redomas duma convic\u00e7\u00e3o onde a ideia substituiu o real.<\/p>\n\n\n\n<p><em>A condi\u00e7\u00e3o humana<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A filosofia de Pascal, toda ela em paradoxos, deriva dum olhar simultaneamente humilde e l\u00facido, que procura alcan\u00e7ar a \u00abrealidade iluminada pelo racioc\u00ednio\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn26\">[26]<\/a> Parte da constata\u00e7\u00e3o de que o homem \u00e9 como um estranho para si mesmo, grande e miser\u00e1vel; grande pela sua raz\u00e3o, a sua capacidade de dominar as paix\u00f5es, grande at\u00e9 \u00abna medida em que se reconhece miser\u00e1vel\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn27\">[27]<\/a> De modo particular aspira a algo mais do que satisfazer os pr\u00f3prios instintos ou resistir-lhes, \u00abporque, aquilo que \u00e9 natureza nos animais, chamamos-lhe mis\u00e9ria no homem\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn28\">[28]<\/a> H\u00e1 uma despropor\u00e7\u00e3o insuport\u00e1vel entre a nossa vontade infinita de ser feliz e conhecer a verdade, por um lado, e, por outro, a nossa raz\u00e3o limitada e a nossa fragilidade f\u00edsica que leva \u00e0 morte. De facto, a for\u00e7a de Pascal est\u00e1 tamb\u00e9m no seu inexor\u00e1vel realismo:&nbsp;\u00abN\u00e3o \u00e9 preciso ter uma alma muito elevada para compreender que aqui n\u00e3o h\u00e1 satisfa\u00e7\u00e3o verdadeira e s\u00f3lida, que todos os nossos prazeres n\u00e3o passam de vaidade, que os nossos males s\u00e3o infinitos e que por fim a morte (amea\u00e7a de cada momento) h\u00e1 de infalivelmente colocar-nos, em poucos anos, no perigo terr\u00edvel de sermos eternamente aniquilados ou infelizes. N\u00e3o h\u00e1 nada de mais real do que isto, nem de mais terr\u00edvel. Fa\u00e7amos os valorosos por mais que quisermos; aquele \u00e9 o fim que espera a vida mais bela do mundo\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn29\">[29]<\/a> Nesta tr\u00e1gica condi\u00e7\u00e3o, compreende-se que o homem n\u00e3o possa permanecer fechado em si mesmo, porque lhe s\u00e3o insuport\u00e1veis a sua mis\u00e9ria e a incerteza do seu destino. Da\u00ed a necessidade de se distrair, o que Pascal admite de bom grado: \u00ab\u00c9 por isso que os homens amam tanto o barulho e o movimento\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn30\">[30]<\/a> Porque se o homem n\u00e3o se distrai da sua condi\u00e7\u00e3o \u2013 e todos sabemos muito bem distrair-nos n\u00e3o s\u00f3 com o trabalho, os prazeres, as rela\u00e7\u00f5es familiares ou amistosas, mas tamb\u00e9m, infelizmente, com os v\u00edcios a que levam certas paix\u00f5es \u2013, a sua humanidade experimenta \u00abo seu nada, o seu abandono, a sua insufici\u00eancia, a sua depend\u00eancia, a sua impot\u00eancia, o seu vazio. [E saem] do fundo da sua alma o t\u00e9dio, o mau humor, a tristeza, o desgosto, o rancor, o desespero\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn31\">[31]<\/a> E, no entanto, o divertimento n\u00e3o acalma nem satisfaz o nosso grande desejo de vida e felicidade. Isto, todos n\u00f3s o sabemos bem!<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 neste ponto que Pascal coloca a sua grande hip\u00f3tese: \u00abQue nos grita esta avidez e esta impot\u00eancia sen\u00e3o que outrora houve no homem uma verdadeira felicidade, da qual agora lhe restam apenas as marcas e os vest\u00edgios completamente vazios e que tenta em v\u00e3o preencher com tudo o que o rodeia, buscando nas coisas ausentes a ajuda que n\u00e3o obt\u00e9m das presentes, mas que s\u00e3o todas incapazes disso porque este abismo infinito n\u00e3o pode ser preenchido sen\u00e3o por um objeto infinito e imut\u00e1vel, isto \u00e9, pelo pr\u00f3prio Deus\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn32\">[32]<\/a> Se o homem \u00e9 como \u00abum rei destronado\u00bb, <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn33\">[33]<\/a> que tende unicamente a recuperar a grandeza perdida mas v\u00ea-se incapaz disso, que \u00e9 ele ent\u00e3o? \u00abQual quimera \u00e9 ent\u00e3o o homem, qual raridade, qual monstruosidade, qual caos, qual sujeito de contradi\u00e7\u00f5es, qual prod\u00edgio, juiz de todas as coisas, fr\u00e1gil verme da terra, deposit\u00e1rio do verdadeiro, cloaca de incerteza e de erro, gl\u00f3ria e esc\u00f3ria do universo? Quem desenvencilhar\u00e1 este emaranhado?\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn34\">[34]<\/a> Pascal, como fil\u00f3sofo, v\u00ea claramente que, \u00ab\u00e0 medida que vamos tendo luz, se descobre mais grandeza e mais baixeza no homem\u00bb, <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn35\">[35]<\/a> mas que estes opostos s\u00e3o inconcili\u00e1veis, porque a raz\u00e3o humana n\u00e3o consegue harmoniz\u00e1-los, nem resolver o enigma.<\/p>\n\n\n\n<p>Por este motivo Pascal sublinha que, se existe um Deus e se o homem recebeu uma revela\u00e7\u00e3o divina \u2013 como afirmam diversas religi\u00f5es \u2013 e se esta revela\u00e7\u00e3o \u00e9 verdadeira, deve encontrar-se nela a resposta que o homem espera para resolver as contradi\u00e7\u00f5es que o atormentam: \u00abAs grandezas e as mis\u00e9rias do homem s\u00e3o t\u00e3o vis\u00edveis que \u00e9 preciso necessariamente que a verdadeira religi\u00e3o nos ensine se existe qualquer grande princ\u00edpio de grandeza no homem e se existe um grande princ\u00edpio de mis\u00e9ria. E \u00e9 preciso ainda que ela nos d\u00ea a raz\u00e3o de ser destes contrastes assombrosos\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn36\">[36]<\/a> Ora, depois de estudar as grandes religi\u00f5es, Pascal conclui que \u00abnenhuma forma de pensamento, nenhuma pr\u00e1tica asc\u00e9tica e m\u00edstica pode oferecer um caminho de salva\u00e7\u00e3o\u00bb, sen\u00e3o a partir do \u00abcrit\u00e9rio superior de verdade que \u00e9 a irradia\u00e7\u00e3o da gra\u00e7a na alma\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn37\">[37]<\/a> \u00abEm v\u00e3o, \u00f3 homens \u2013 escreve Pascal, imaginando o que poderia dizer-nos o verdadeiro Deus \u2013, procurais em v\u00f3s mesmos o rem\u00e9dio para as vossas mis\u00e9rias. Todas as vossas luzes podem, no m\u00e1ximo, compreender que n\u00e3o encontrareis em v\u00f3s mesmos nem a verdade nem o bem. Os fil\u00f3sofos prometeram-vos isso, e n\u00e3o o conseguiram. N\u00e3o sabem qual seja o vosso verdadeiro bem, nem qual seja a vossa verdadeira condi\u00e7\u00e3o\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn38\">[38]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Chegado a este ponto, Pascal que perscrutou, com a for\u00e7a singular da sua intelig\u00eancia, a condi\u00e7\u00e3o humana, a Sagrada Escritura e a tradi\u00e7\u00e3o da Igreja, pretende, com a simplicidade do esp\u00edrito de inf\u00e2ncia, propor-se como humilde testemunha do Evangelho. \u00c9 um crist\u00e3o que quer falar de Jesus Cristo \u00e0queles que decidiram, um pouco precipitadamente, que n\u00e3o h\u00e1 motivos s\u00f3lidos para acreditar nas verdades do cristianismo. Pascal, ao contr\u00e1rio, sabe por experi\u00eancia que o conte\u00fado da Revela\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o se op\u00f5e \u00e0s exig\u00eancias da raz\u00e3o, mas traz a resposta inaudita a que nenhuma filosofia teria podido chegar por si mesma.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Convers\u00e3o: a visita do Senhor<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>No dia 23 de novembro de 1654, Pascal viveu uma experi\u00eancia muito forte, de que se fala at\u00e9 agora como a sua \u00abNoite de Fogo\u00bb. Esta experi\u00eancia m\u00edstica, que o fez derramar l\u00e1grimas de alegria, foi t\u00e3o intensa e decisiva para ele que a escreveu num peda\u00e7o de papel datado com precis\u00e3o, o \u00abMemorial\u00bb, que guardara no forro do casaco sendo descoberto s\u00f3 depois da sua morte. \u00c9 imposs\u00edvel saber a natureza exata do que se passou na alma de Pascal naquela noite, mas parece tratar-se dum encontro de que ele pr\u00f3prio reconheceu a analogia com aqueloutro, fundamental em toda a hist\u00f3ria da revela\u00e7\u00e3o e da salva\u00e7\u00e3o, vivido por Mois\u00e9s diante da sar\u00e7a ardente (cf. <em>Ex<\/em> 3). O termo \u00ab <em>FOGO<\/em>\u00bb, <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn39\">[39]<\/a>que Pascal quis colocar no cimo do \u00abMemorial\u00bb, convida-nos, ressalvadas as devidas propor\u00e7\u00f5es, a propor uma tal aproxima\u00e7\u00e3o. O paralelismo parece ser indicado pelo pr\u00f3prio Pascal quando, imediatamente depois da evoca\u00e7\u00e3o do fogo, retomou o t\u00edtulo que o Senhor tomou para Si mesmo ao apresentar-Se a Mois\u00e9s: \u00abDeus de Abra\u00e3o, Deus de Isaac e Deus de Jacob\u00bb ( <em>Ex<\/em> 3, 6.15), acrescentando: \u00abn\u00e3o dos fil\u00f3sofos e dos eruditos. Certeza, certeza, sentimento, alegria, paz. Deus de Jesus Cristo\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p>Sim, o nosso Deus \u00e9 alegria, e Blaise Pascal testemunha-o a toda a Igreja, bem como a quantos buscam a Deus:\u00abN\u00e3o se trata do Deus abstrato nem do Deus c\u00f3smico, n\u00e3o! \u00c9 o Deus duma pessoa, duma chamada, o Deus de Abra\u00e3o, de Isaac, de Jacob, o Deus que \u00e9 certeza, que \u00e9 sentimento, que \u00e9 alegria\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn40\">[40]<\/a> Este encontro, que confirmou a Pascal a \u00abgrandeza da alma humana\u00bb, cumulou-o duma alegria viva e inesgot\u00e1vel: \u00abAlegria, alegria, alegria, l\u00e1grimas de alegria\u00bb. E esta alegria divina torna-se, para Pascal, o lugar da profiss\u00e3o de f\u00e9 e da ora\u00e7\u00e3o: \u00abJesus Cristo. Estive separado d\u2019Ele: fugi d\u2019Ele, abandonei-O, reneguei-O, crucifiquei-O. Que eu nunca mais viva separado d\u2019Ele\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn41\">[41]<\/a> \u00c9 a experi\u00eancia do amor daquele Deus pessoal, Jesus Cristo \u2013 desde que tomou parte na nossa hist\u00f3ria e incessantemente toma parte na nossa vida \u2013, que introduz Pascal no caminho da convers\u00e3o profunda e, consequentemente, desta \u00abren\u00fancia total e suave\u00bb <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn42\">[42]<\/a> (porque vivida na caridade) ao \u00abhomem antigo corrompido por desejos enganadores\u00bb ( <em>Ef<\/em> 4, 22).<\/p>\n\n\n\n<p>Como recordava S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II na sua Enc\u00edclica sobre as rela\u00e7\u00f5es entre f\u00e9 e raz\u00e3o, \u00abfil\u00f3sofos, como Blaise Pascal\u00bb, distinguiram-se pela recusa de qualquer \u00abpresun\u00e7\u00e3o\u00bb, bem como pela sua op\u00e7\u00e3o por uma postura feita de \u00abhumildade\u00bb e simultaneamente de \u00abcoragem\u00bb. Experimentaram que a f\u00e9 \u00abliberta a raz\u00e3o da presun\u00e7\u00e3o\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn43\">[43]<\/a> \u00c9 claro que Pascal, j\u00e1 antes da noite de 23 de novembro de 1654, \u00abn\u00e3o tinha d\u00favida alguma sobre a exist\u00eancia de Deus. Sabe tamb\u00e9m que este Deus \u00e9 o sumo bem. (\u2026) O que lhe falta e que ele espera, n\u00e3o \u00e9 um saber mas um poder, n\u00e3o \u00e9 uma verdade, mas uma for\u00e7a\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn44\">[44]<\/a> Agora esta for\u00e7a foi-lhe dada pela gra\u00e7a: sente-se atra\u00eddo, com certeza e alegria, por Jesus Cristo: \u00abN\u00e3o conhecemos Deus sen\u00e3o por Jesus Cristo. Sem este mediador, est\u00e1 cortada toda a comunica\u00e7\u00e3o com Deus\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn45\">[45]<\/a> Descobrir Jesus Cristo \u00e9 descobrir o Salvador e Libertador de que tenho necessidade: \u00abEste Deus n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o o reparador da nossa mis\u00e9ria. Por isso n\u00e3o podemos conhecer bem a Deus, sem conhecer as nossas iniquidades\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn46\">[46]<\/a> Como toda a convers\u00e3o aut\u00eantica, a convers\u00e3o de Blaise Pascal realiza-se na humildade, que nos liberta \u00abda nossa consci\u00eancia isolada e da autorreferencialidade\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn47\">[47]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>A intelig\u00eancia imensa e inquieta de Blaise Pascal, repleta de paz e alegria perante a revela\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo, convida-nos, segundo \u00aba ordem do cora\u00e7\u00e3o\u00bb, <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn48\">[48]<\/a> a caminhar com seguran\u00e7a iluminados por \u00abestas luzes celestes\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn49\">[49]<\/a> Com efeito, se o nosso Deus \u00e9 um \u00abDeus escondido\u00bb ( <em>Is<\/em> 45, 15) \u00e9 porque Ele \u00abSe quis esconder\u00bb, <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn50\">[50]<\/a> de tal modo que a nossa raz\u00e3o, iluminada pela gra\u00e7a, nunca acabar\u00e1 de O descobrir. Portanto \u00e9 pela ilumina\u00e7\u00e3o da gra\u00e7a que O podemos conhecer. Mas a liberdade do homem deve abrir-se, apressando-Se Jesus a consolar-nos: \u00abTu n\u00e3o Me procurarias, se n\u00e3o me tivesses j\u00e1 encontrado\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn51\">[51]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><em>A ordem do cora\u00e7\u00e3o e as suas raz\u00f5es de crer<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Segundo as palavras de Bento XVI, \u00abdesde os prim\u00f3rdios, a tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica rejeitou o chamado fide\u00edsmo, que \u00e9 a vontade de crer contra a raz\u00e3o\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn52\">[52]<\/a> Nesta linha, Pascal est\u00e1 profundamente apegado ao \u00abbom senso da f\u00e9 em Deus\u00bb, <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn53\">[53]<\/a> n\u00e3o s\u00f3 porque \u00aba mente n\u00e3o pode ser for\u00e7ada a crer naquilo que sabe ser falso\u00bb, <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn54\">[54]<\/a> mas tamb\u00e9m porque, \u00abse ofender os princ\u00edpios da raz\u00e3o, a nossa religi\u00e3o ser\u00e1 absurda e rid\u00edcula\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn55\">[55]<\/a> Entretanto, se a f\u00e9 \u00e9 razo\u00e1vel, ela \u00e9 tamb\u00e9m um dom de Deus, e n\u00e3o se pode impor: \u00abSeria rid\u00edculo provar que algu\u00e9m deve ser amado limitando-se a expor ordenadamente as causas do amor\u00bb, <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn56\">[56]<\/a> observa Pascal com o seu subtil humorismo, tra\u00e7ando um paralelo entre o amor humano e a forma como Deus Se nos manifesta.&nbsp;\u00c0 semelhan\u00e7a do&nbsp;amor \u00abque se prop\u00f5e, mas n\u00e3o se imp\u00f5e, o amor de Deus nunca se imp\u00f5e\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn57\">[57]<\/a> Jesus \u00abdeu testemunho da verdade (cf. <em>Jo<\/em> 18, 37), mas n\u00e3o a quis impor pela for\u00e7a aos seus contraditores\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn58\">[58]<\/a> \u00c9 por isso que \u00abh\u00e1 bastante luz para quem nada mais deseja sen\u00e3o ver, e bastante escurid\u00e3o para quem possui a disposi\u00e7\u00e3o oposta\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn59\">[59]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>E prossegue afirmando que \u00aba f\u00e9 \u00e9 diferente da prova. Esta \u00e9 humana, aquela \u00e9 um dom de Deus\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn60\">[60]<\/a> Por isso \u00e9 imposs\u00edvel acreditar, \u00abse Deus n\u00e3o inclina o cora\u00e7\u00e3o\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn61\">[61]<\/a> Se a f\u00e9 \u00e9 duma ordem superior \u00e0 raz\u00e3o, isto n\u00e3o significa de modo algum que se lhe op\u00f5e, mas que a supera infinitamente. Portanto ler a obra de Pascal n\u00e3o \u00e9 descobrir, antes de tudo, que a raz\u00e3o esclarece a f\u00e9; mas entrar na escola dum crist\u00e3o de racionalidade excecional, que soube melhor que ningu\u00e9m dar-se conta duma ordem estabelecida, por dom de Deus, acima da raz\u00e3o: \u00abA dist\u00e2ncia infinita entre os corpos e as mentes representa a dist\u00e2ncia imensamente mais infinita entre as mentes e a caridade, porque esta \u00e9 sobrenatural\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn62\">[62]<\/a> Cientista perito de geometria, isto \u00e9, da ci\u00eancia dos corpos colocados no espa\u00e7o, e ge\u00f3metra perito de filosofia, isto \u00e9, da ci\u00eancia das mentes colocadas na hist\u00f3ria, Blaise Pascal, iluminado pela gra\u00e7a da f\u00e9, podia resumir assim a totalidade da sua experi\u00eancia: \u00abDe todos os corpos juntos, n\u00e3o se conseguiria fazer sair um pequeno pensamento: \u00e9 imposs\u00edvel, pertence a outra ordem. De todos os corpos e de todas as mentes n\u00e3o se pode tirar um impulso de verdadeira caridade: \u00e9 imposs\u00edvel, pertence a outra ordem, \u00e0 ordem sobrenatural <em>\u00bb<\/em>. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn63\">[63]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Nem a intelig\u00eancia geom\u00e9trica nem o racioc\u00ednio filos\u00f3fico permitem ao homem chegar, sozinho, a uma \u00abvis\u00e3o perfeitamente n\u00edtida\u00bb do mundo e de si mesmo. A pessoa que se debru\u00e7a sobre os detalhes dos seus c\u00e1lculos, n\u00e3o beneficia da vis\u00e3o de conjunto que permite \u00abentrever todos os princ\u00edpios\u00bb. Isto pertence \u00e0 \u00abintelig\u00eancia intuitiva\u00bb, cujos m\u00e9ritos se devem atribuir tamb\u00e9m a Pascal, porque, quando se procura ler a realidade, \u00ab\u00e9 preciso v\u00ea-la de improviso e com um \u00fanico olhar\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn64\">[64]<\/a> Esta intelig\u00eancia intuitiva est\u00e1 ligada \u00e0quilo que Pascal chama o \u00abcora\u00e7\u00e3o\u00bb: \u00abConhecemos a realidade n\u00e3o s\u00f3 com a raz\u00e3o, mas tamb\u00e9m com o cora\u00e7\u00e3o. \u00c9 desta \u00faltima forma que conhecemos os primeiros princ\u00edpios e, em v\u00e3o, procura p\u00f4-los em d\u00favida o racioc\u00ednio, que n\u00e3o tem parte nisso\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn65\">[65]<\/a> Ora as verdades divinas \u2013 tais como Deus que nos criou \u00e9 amor; Ele \u00e9 Pai, Filho e Esp\u00edrito Santo; encarnou em Jesus Cristo, morreu e ressuscitou para nossa salva\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o s\u00e3o demonstr\u00e1veis com a raz\u00e3o, mas podem ser conhecidas com a certeza da f\u00e9, passando ent\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o espiritual \u00e0 mente racional, que as reconhece como verdadeiras e pode por sua vez apresent\u00e1-las: \u00ab\u00c9 por isso que aqueles a quem Deus deu a religi\u00e3o pelo sentimento do cora\u00e7\u00e3o aparecem t\u00e3o felizes e legitimamente convictos\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn66\">[66]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Pascal nunca se resignou com o facto de alguns dos seus semelhantes n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o conhecerem Jesus Cristo, mas, por pregui\u00e7a ou por causa das suas paix\u00f5es, desdenharem levar o Evangelho a s\u00e9rio. Com efeito, \u00e9 em Jesus Cristo que se joga a vida deles. \u00abA imortalidade da alma \u00e9 algo que de tal maneira nos pressiona, nos toca t\u00e3o profundamente, que \u00e9 preciso ser totalmente insensato para n\u00e3o estar interessado em saber como est\u00e3o as coisas. (\u2026) E \u00e9 por isso que, no \u00e2mbito daqueles que n\u00e3o se sentem convictos, fa\u00e7o uma diferen\u00e7a extrema entre os que trabalham com todas as suas for\u00e7as para se instruir e os que vivem sem se preocupar nem pensar nisso\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn67\">[67]<\/a> N\u00f3s pr\u00f3prios sabemos bem que muitas vezes procuramos fugir da morte ou domin\u00e1-la, pensando que poder\u00edamos \u00abbanir o pensamento da nossa finitude\u00bb ou \u00abretirar o poder da morte e afastar o medo. Mas a f\u00e9 crist\u00e3 n\u00e3o \u00e9 uma forma de exorcizar o medo da morte; pelo contr\u00e1rio, ajuda-nos a enfrent\u00e1-la. Mais cedo ou mais tarde, todos n\u00f3s passaremos por aquela porta. A verdadeira luz que ilumina o mist\u00e9rio da morte prov\u00e9m da ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn68\">[68]<\/a> S\u00f3 a gra\u00e7a de Deus permite ao cora\u00e7\u00e3o do homem ter acesso \u00e0 ordem do conhecimento divino, \u00e0 caridade. Isto levou um importante comentarista, contempor\u00e2neo de Pascal, a escrever que \u00abo pensamento s\u00f3 consegue pensar crist\u00e3mente, se tiver acesso \u00e0quilo que Jesus Cristo implementa: a caridade\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn69\">[69]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><em>Pascal, a controv\u00e9rsia e a caridade<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Antes de concluir, \u00e9 necess\u00e1rio evocar as rela\u00e7\u00f5es de Pascal com o jansenismo. Uma das suas irm\u00e3s, Jacqueline, entrara para a vida religiosa em Port-Royal, numa congrega\u00e7\u00e3o cuja teologia estava muito influenciada por Cornelius Jansen, dito Jans\u00e9nio, que compusera um tratado, <em>Augustinus<\/em>, publicado em 1640. J\u00e1 depois da sua \u00abNoite de Fogo\u00bb, Pascal fora fazer um retiro na abadia de Port-Royal, em janeiro de 1655. Ora, nos meses seguintes, reacendeu-se na Sorbona, a Universidade de Paris, uma controv\u00e9rsia importante e j\u00e1 antiga contrapondo os jesu\u00edtas aos \u00abjansenistas\u00bb, que estavam ligados ao tratado <em>Augustinus<\/em>. A disputa centrou-se principalmente na quest\u00e3o da gra\u00e7a de Deus e na rela\u00e7\u00e3o da gra\u00e7a com a natureza humana, em particular o livre arb\u00edtrio. Pascal, embora n\u00e3o pertencesse \u00e0 congrega\u00e7\u00e3o de Port-Royal nem tomasse partido (escrever\u00e1: \u00absou sozinho (\u2026), n\u00e3o sou de Port-Royal\u00bb <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn70\">[70]<\/a>), todavia foi encarregado pelos jansenistas de os defender, sobretudo porque era potente a sua arte ret\u00f3rica. F\u00ea-lo em 1656 e 1657, publicando uma s\u00e9rie de dezoito cartas, denominadas <em>Provinciais<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas propostas ditas \u00abjansenistas\u00bb eram realmente contr\u00e1rias \u00e0 f\u00e9, <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn71\">[71]<\/a> e Pascal reconhecia-o, mas contestava que elas estivessem presentes no <em>Augustinus<\/em> e fossem seguidas pelos membros de Port-Royal. Entretanto algumas das suas pr\u00f3prias afirma\u00e7\u00f5es, relativas por exemplo \u00e0 predestina\u00e7\u00e3o, tiradas da teologia do \u00faltimo per\u00edodo de Santo Agostinho, cujas f\u00f3rmulas foram aperfei\u00e7oadas por Jans\u00e9nio, n\u00e3o soam como verdadeiras. Todavia \u00e9 preciso compreender que, assim como Santo Agostinho quis combater no s\u00e9culo V os pelagianos, que afirmavam que o homem pode, por suas pr\u00f3prias for\u00e7as e sem a gra\u00e7a de Deus, fazer o bem e ser salvo, assim tamb\u00e9m Pascal acreditava sinceramente que ent\u00e3o estava a atacar o pelagianismo ou o semipelagianismo, que ele julgava identificar nas doutrinas seguidas pelos jesu\u00edtas molinistas (do nome do te\u00f3logo Lu\u00eds de Molina, falecido em 1600, mas cuja influ\u00eancia ainda estava viva a meados do s\u00e9culo XVII). Demos cr\u00e9dito \u00e0 franqueza e sinceridade das suas inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta Carta n\u00e3o \u00e9 certamente o lugar para reabrir a quest\u00e3o. Entretanto aquilo que se adverte como justo nas posi\u00e7\u00f5es de Pascal \u00e9 v\u00e1lido ainda para o nosso tempo: h\u00e1 que reconhecer que o \u00abneopelagianismo\u00bb, <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn72\">[72]<\/a> ao pretender que \u00abtudo depende do esfor\u00e7o humano canalizado atrav\u00e9s de normas e estruturas eclesiais\u00bb, <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn73\">[73]<\/a> \u00abnos intoxica com a presun\u00e7\u00e3o de uma salva\u00e7\u00e3o ganha com as nossas for\u00e7as\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn74\">[74]<\/a> E podemos afirmar que a \u00faltima posi\u00e7\u00e3o de Pascal relativamente \u00e0 gra\u00e7a e, em particular, ao facto de que Deus \u00abquer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade\u00bb ( <em>1 Tm<\/em> 2, 4), aparece enunciada em termos perfeitamente cat\u00f3licos no final da sua vida. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn75\">[75]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Como fazia notar quase ao princ\u00edpio, Blaise Pascal, no termo da sua vida, breve mas duma riqueza e fecundidade extraordin\u00e1rias, colocou o amor dos seus irm\u00e3os em primeiro lugar. Sentia-se e reconhecia-se membro de um s\u00f3 corpo, porque \u00abDeus tendo feito o c\u00e9u e a terra, que n\u00e3o sente a felicidade do seu ser, quis criar seres capazes de a conhecerem e formarem um corpo de membros pensantes <em>\u00bb<\/em>. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn76\">[76]<\/a> Na sua posi\u00e7\u00e3o de fiel leigo, Pascal saboreou a alegria do Evangelho, com que o Esp\u00edrito quer fecundar e curar \u00abtodas as dimens\u00f5es do homem\u00bb e reunir \u00abtodos os homens \u00e0 volta da mesa do Reino\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn77\">[77]<\/a> Em 1659, quando comp\u00f4s a magn\u00edfica <em>Ora\u00e7\u00e3o para pedir a Deus o bom uso das doen\u00e7as<\/em>, Pascal \u00e9 um homem pacificado, que j\u00e1 n\u00e3o se situa na controv\u00e9rsia, nem mesmo na apolog\u00e9tica. Estando muito doente e \u00e0 beira da morte, pede para comungar, mas n\u00e3o o p\u00f4de fazer imediatamente. Ent\u00e3o dirige estas palavras \u00e0 sua irm\u00e3: \u00abN\u00e3o podendo comungar a cabe\u00e7a [Jesus Cristo], queria comungar os membros\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn78\">[78]<\/a> E \u00abtinha um grande desejo de morrer na companhia dos pobres\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn79\">[79]<\/a> \u00abMorre com a simplicidade duma crian\u00e7a\u00bb: <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn80\">[80]<\/a> diz-se dele pouco antes de exalar o \u00faltimo respiro em 19 de agosto de 1662. Depois de receber os Sacramentos, as \u00faltimas palavras foram: \u00abQue Deus nunca me abandone\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn81\">[81]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Possam a sua obra luminosa e os exemplos da sua vida, t\u00e3o profundamente batizada em Jesus Cristo, ajudar-nos a percorrer at\u00e9 ao fim o caminho da verdade, da convers\u00e3o e da caridade. Pois a vida dum homem \u00e9 t\u00e3o curta: \u00abAlegria eterna por um dia de trabalho na terra\u00bb. <a href=\"https:\/\/www.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/apost_letters\/documents\/20230619-sublimitas-et-miseria-hominis.html#_ftn82\">[82]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><em>Roma \u2013 S\u00e3o Jo\u00e3o de Latr\u00e3o, 19 de junho de 2023<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>FRANCISCO<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Grandeza e mis\u00e9ria do homem&nbsp;\u00e9 o paradoxo que est\u00e1 no centro da reflex\u00e3o e mensagem de Blaise Pascal, nascido h\u00e1 quatro s\u00e9culos, em 19 de junho<span class=\"excerpt-hellip\"> [\u2026]<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[15,16],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.marcelline.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8960"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.marcelline.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.marcelline.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.marcelline.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.marcelline.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8960"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.marcelline.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8960\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8961,"href":"https:\/\/www.marcelline.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8960\/revisions\/8961"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.marcelline.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8960"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.marcelline.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8960"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.marcelline.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8960"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}